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Metafísica & Iniciação: As Quatro Modalidades de Relação com o Real por Rémi Boyer

«As Vias do Despertar, quaisquer que sejam as tradições, podem declinar-se em quatro modalidades, que determinam quatro relações com o Real [conforme o diagrama em anexo).

Se o demandador compreende imediatamente que ele é o Absoluto (e se simultaneamente o Absoluto se apodera dele), a demanda está concluída, aquie agora, para sempre. Nem sequer chegou a começar. Tudo está realizado. A palavra “Absoluto” pode ser substituída pela palavra “Deus”, derradeiro pronome pessoal. O Absoluto é também o Todo, o Um, o Uno, o Grande Real, pouco importa a palavra usada desde que a entendamos como o Si.

O Absoluto é, em primeiro lugar, Absoluta Liberdade. A manifestação dessa Liberdade conduz o Absoluto a esquecer-se de si na multiplicidade das formas que ele cria; a perder-se para melhor se encontrar e se reconhecer; a negar a sua própria natureza no Grande Jogo, o jogo da Consciência e da Energia.

Se o demandador não compreende o Absoluto, mas se apercebe do Jogo da Consciência e da Energia, Shiva/Shakti, Absolutidade/Seidade, então ele é o próprio jogador, jogando no seio da dualidade sem nunca abandonar, em segundo plano, a alegria e a felicidade da consciência não-dual. Ele é todos os pares de opostos simultaneamente, não se identificando com nenhum dos termos da oposição.

Se o Jogo da Consciência e da Energia permanece alheio ao demandador, então ele respeita os Ritos e as regras (a Regra absoluta sendo a ausência de regra e a infinita Liberdade). Estuda os seus mitos, os seus símbolos, os seus arcanos até conseguir distinguir, por trás das formas tradicionais, aquilo que aparecerá como uma estrutura absoluta, um arquétipo das formas tradicionais, uma nau de energia navegando sobre o oceano da Consciência. Essa estrutura absoluta revela-se então como o rasto mnésico do Jogo da Energia e da Consciência, rasto deixado “oco” no Silêncio, que podemos considerar, metaforicamente, como uma substância virgem.

Todos os Ritos são variações poéticas sobre o tema de um poema original, que é também o Rito original. Poema original ou Rito original estão fora de toda a temporalidade, fora de toda a linguagem. A policronia das temporalidades e a polifonia das línguas são apenas a sua celebração. Isso que experienciamos como revelação é um fragmento dessa celebração integral e integrante, infinitamente proteiforme e criadora, percebida através das sobreposições filtrantes da dualidade. In fine, tudo é Rito, tudo é Poema. A travessia das formas duais e, entre elas, das formas tradicionais, conduz ao País do Silêncio, da não-representação, à “Terra do Centro”, ao “Alto País dos Amigos de Deus”.

Se o demandador não entende os ritos, se para ele os ritos não fazem sentido, então dedica-se à Beneficência, da qual Robert Amadou dizia ser ela o equivalente da teurgia. Ele coloca-se ao serviço do Outro, serve o seu próximo que ele crê ser outro, ao passo que o verdadeiro “próximo” – aquele que se aproxima – é aquele que brota em nós próprios, liberto de qualquer entrave; é o Si.»

Rémi Boyer in “O Discurso de Sintra – Metafísica & Iniciação” | www.zefiro.pt

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